Depois da Lua cheia, vem a fase minguante…..

Fogueira

A Lua cheia é um período de tempo que representa uma iluminação temporária dos nossos padrões e processos inconscientes. Esta circunstância facilita a tomada de consciência dos mesmos, através da observação do que sentimos, do que pensamos de como reagimos e com alguma frequência são acontecimentos externos que induzem estes pensamentos ou sentimentos ou emoções. Coloco propositadamente a ênfase naquilo que é desconfortável, doloroso até, porque estes elementos devem ser descartados. Se não acrescentam bem-estar, se não são construtivos e pelo contrário travam e atrapalham o usufruir do melhor que há para viver, então está na hora de desapegar e quanto mais depressa melhor. São o resultado ou resíduos de experiências passadas, às quais ficámos agarradas(os) por memórias conscientes ou inconscientes.

Pode existir uma ligação até a vidas anteriores. Nós somos seres que usamos os nossos corpos físicos, com a respectiva personalidade, para na experiência terrena a nossa alma evoluir. Trazemos incontáveis memórias de incontáveis outras vidas em que ficámos presas(os) a incontáveis experiências e crenças, que nos proporcionaram algum tipo de envolvimento emocional, negativo muitas vezes. E agora, sem imaginarmos a razão, quando surge uma situação semelhante, ou um pensamento que se relaciona à situação, uma reacção condicionada é despoletada pela experiência do passado. E frequentemente este tipo de comportamentos ou sentimentos, que fazem parte da nossa forma habitual de ser ou de agir, não nos apoiam. Mas no momento em que tomamos consciência destes elementos inúteis estamos prontas(os) para desapegar, para largar.

Depois da Lua cheia, a Lua continua o seu percurso e novamente se vai aproximando do Sol. Os 180° que definem a oposição entre os dois vão lentamente diminuindo e no momento que são atingidos os 90° dá-se a entrada na fase minguante. Esta é uma altura perfeita para dar corpo à intenção clara de largar o que foi detectado e nos limita, nos impede tantas vezes de alcançar uma vida mais feliz e plena.

Exemplo do que pode haver para desapegar: situações do nosso passado que relembrando causam emoções negativas; a emoção é para desapegar, o que passou não existe mais. Emoções que surgem sem sabermos de onde nem porquê e que podem estar ligadas a memórias kármicas inconscientes; mau estar, tristeza, melancolia, culpa, medo, egocentrismo…. é para desapegar. Emoções que alimentamos em relação a determinadas pessoas ou situações: raiva, desejos de vingança, impotência, frustração. Crenças que limitam: odeio o meu trabalho mas não tenho outro remédio; não tenho capacidade de ultrapassar os meus problemas. Comportamentos que sistematicamente causam problemas: não levar em conta as necessidades próprias; não assumir os obstáculos; não aprender a gerir os recursos disponíveis; ter o impulso para fazer tudo e mais alguma coisa (esta é para mim…). A lista é interminável…

Tomar consciência, sentir em pleno na pele o que quer que seja que nos faz mal é um acontecimento importante. E tal como, mais ou menos exuberantemente, ritualizamos o nosso aniversário ou a passagem do ano civil, ou qualquer outra situação que valorizamos, podemos ritualizar o momento em que desapegamos do que estiver a mais na nossa vida. Podemos escrever num papel o que está preparado para ir embora e cortar depois em mil pedacinhos, deitando no lixo. Podemos inventar um ritual, mais ou menos complexo de acordo com os nossos gostos. Eu adaptei um a que designei como “a fogueira” porque o potencial purificador do fogo é utilizado. Tenho um recipiente metálico que será o “palco da purificação”. Num papel escrevo o que há para desapegar, deito fogo e coloco no recipiente. Enquanto a chama arde repito uma frase de Yogananda: sementes do karma passado não podem germinar quando torradas na Sabedoria Divina. Faço isto, não com um espírito austero e de grande solenidade, mas com uma disposição leve, como se fosse uma brincadeira. Gosto verdadeiramente de ver o papel a arder, e nele as sementes malvadas a torrarem!!!

Não podemos ter a pretensão de fazer um ritual e desapegar de vez! É preciso insistir, é preciso querer e ter a persistência necessária, dizer não às antigas limitações e o amor próprio para fazer vingar as atitudes, as crenças e os sentimentos que nos fazem caminhar em frente. Um ritual mensal de desapego pode ser um momento agradável em que vincamos perante nós e o Universo inteiro que estamos determinadas(os) a alcançar o melhor que há à nossa espera!

Porquê um ritual?  O psicanalista de origem judaica, Fritz Perls, escreveu no seu livro “A Abordagem Gestáltica”

Parece haver, em todos os seres humanos, uma tendência inata para o ritual(…) Encontramos esta tendência não apenas entre os primitivos, mas também entre grupos altamente civilizados (…).

Se numa ocasião importante não houvesse nenhum ritual — nenhum (…) aperto de mãos, discurso, cântico, nenhuma cerimónia de qualquer tipo — tudo pareceria sem sentido e vazio. O ritual parece dar à tal experiência ordem, forma e objectivo. Em termos gestálticos, poderíamos dizer que torna mais evidente, faz a figura sobressair mais nitidamente. Todos nós, por exemplo, parecemos sentir a necessidade de algum ritual para lidar com a morte. Mesmo o cidadão menos sofisticado do mundo acharia chocante se simplesmente empacotassem os nossos cadáveres e nos desembaraçássemos deles.

Mesmo que ainda não consiga aproveitar a Lua cheia como um momento de iluminação do seu inconsciente, onde estas sementes se acumulam, talvez tenha mesmo assim, bem presente o que mantém em si e deve largar. Aproveite os períodos de Lua minguante e torne-se mais leve. Faça-o, com ritual ou sem ritual. Ou invente um ritual só seu. Ou simplesmente tire um tempo só para si, reflicta sobre o que aqui se propõe, e desapegue-se do que estiver a mais.

 

 

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